A S.A. e o asfaltamento da pista do autódromo

Depois de três anos de glória, o esporte automobilístico de Cascavel sofre um nocaute. A mesma federação que elegeu o autódromo no ano anterior para sediar as cinco etapas do campeonato paranaense, interditou as pistas de terra alegando falta de segurança.

Para meu pai e o grupo de amigos, aquela decisão daria início a um capítulo ainda mais desafiador. Era chegada a hora de unir esforços para adequar o autódromo às normas exigidas pela federação. Apista de 3.032 metros, com sete curvas, precisava ser asfaltada. Havia recursos para a obra? Não. Mas a interdição não seria motivo para desistir. A empreitada maior estava por vir. Meu pai, como sempre, não recuou.

Pelo contrário, arregaçou as mangas e encarou a missão com a mesma paixão e profissionalismo com que mobilizou o grupo de amigos para tirar as corridas das ruas da cidade e comprar a área quatro anos atrás. Para a execução da obra de asfaltamento, o grupo achou or bem formalizar o que até então fundaram a entidade sem fins lucrativos Autódromo de Cascavel S.A. Empreendimentos Esportivos.

Na constituição da diretoria, em documento datilografado com data de 7 de outubro de 1972, meu pai ficou à frente no cargo de diretor-presidente. José Bresolin assumiu a direção financeira da sociedade e Adelar Bertolucci, a direção administrativa. Havia também um conselho fiscal composto por Antônio Cardoso Dora, Fildelcino Tolentino e Adão Gasparovic. Nilo Augusto Reque, Tadeu Mizerkowiski e Arlindo Dall Pizzol também faziam parte do grupo como conselheiros suplentes.

O piloto Pedro Muffato assumiu o cargo de diretor comercial, mas numa situação figurativa, eis que licenciado do cargo para concorrer à prefeitura de Cascavel, como demonstra o documento da formação da diretoria. Nem é preciso um olhar muito atento para perceber que a popularidade conquistada nas corridas foi um trampolim para concorrer ao cargo de prefeito e ser eleito nas eleições de novembro de 1972.

O trabalho para o asfaltamento da pista, com frequência, manchetava os jornais da época. Meu pai sempre aparece, nesses noticiários, como alguém que deu o máximo de si em nome da realização deste grande sonho, pois atuava na coordenação, acertando os mínimos detalhes, orientando o pessoal, carregando pedras, operando máquinas e pagando contas. Até mesmo comida ele e minha mãe serviam para alimentar os homens que trabalhavam na obra.

De tão dedicado e ansioso pela pista pronta dentro das normas exigidas pela Confederação Brasileira, chegou a se afastar por dois meses da retífica, que ele mesmo administrava, justamente para empenhar mais tempo ao empreendimento.

Ele não contabilizou os prejuízos que teria com a ausência na empresa. Já estava tão envolvido com tudo aquilo que o amor pelo esporte e pelo autódromo não tinha preço. Certa vez, ele me confidenciou que se tivesse chovido no dia da inauguração e não tivesse bilheteria, teria quebrado, pois o dinheiro arrecadado com a venda das ações não foi suficiente para cobrir os custos, fazendo com que pagasse do bolso e assumisse compromissos futuros.

De fato, quando um homem tem uma paixão, ele não mede esforços e não se prende em cálculos para contabilizar o que pode perder. Deixa-se guiar pelo sentimento de realização, pelas sensações de ver o trabalho avançando. E foi assim. Quem conhece a história sabe que ele e os amigos tiraram dinheiro do próprio bolso para pagar os trabalhadores e viabilizar tudo.

Eu me lembro muito bem dessa etapa da obra. Algumas curiosidades marcaram esta fase. Devia ter uns cinco anos quando caí de costas no piche quente e aquilo ficou grudado nas minhas costas. Foram dias até minha mãe conseguir retirar tudo. Me recordo também do pessoal comendo ali mesmo no autódromo, numa cozinha improvisada, para não perder tempo.

Tenho uma lembrança muito forte de outro episódio engraçado. Numa dessas idas com meu pai ao autódromo, cheguei na cozinha e o \“Tatu\”, o apelido do cozinheiro, tinha dado uma machadada na cabeça de um lagarto do papo amarelo e o machado ainda estava cravado na cabeça do bicho. Ao ver aquela cena, tive pena e tirei o machado da cabeça do pobre animal. O lagarto, de mais ou menos um metro de comprimento, que até então se fingiu de morto, saiu andando. Com este meu gesto solidário, tirei o jantar dos caras naquela noite.

Título múltiplo de ações

Autodromo de Cascavel S.A. empreendimentos esportivos: Sede Cascavel - Paraná.

Capital: art. 5 - O capital é de Cr$ 70.500,00 (Setenta mil e quinhentos cruzeiros) dividio em 70.500 (setenta mil e quinhentas) ações ordinárias no valor de Cr$ 1,00 (um cruzeiro) cada uma, nominativas ou ao portador à opção do acionista.

Prazo de duração: indeterminado.

Atos constitutivos e estatutos arquivos na Junta Comercial do Estado do Paraná sob o número 96.725 em 03-08-72.