Ao rever o acervo do autódromo, arquivado com tanto zelo pela minha mãe, fica nítida a intenção do meu pai como presidente da S.A.: nunca foi o pódio. Aliás, ele abriu mão dos treinos para se dedicar à construção. Muffato, ao contrário, privilegiou a carreira como piloto.
Na entrevista abaixo, publicada na Revista Placar, Muffato deixa claro que desde as corridas nas ruas de terra buscava ser vitorioso. Ao longo da reportagem, não houve qualquer menção, mínima que seja, ao presidente Zilmar Beux e aos demais integrantes da Autódromo S.A.. A matéria omitiu o trabalho do grupo, e o então prefeito figurou isolado na revista mais importante do segmento esportivo em nível nacional.
Foi um movimento muito bem articulado e rápido que ofuscou a imagem do meu pai e dos seus amigos em um momento que todos os holofotes estavam voltados para o autódromo. A posição privilegiada nas disputas e o status de prefeito lhe deram mais visibilidade ainda.
Em algumas situações, quando questionado sobre essa matéria, transferia a culpa para o repórter por ter interpretado erroneamente. Mas, fazendo uma breve reflexão, fica a pergunta: por que o repórter ignoraria tal informação se a tivesse recebido corretamente, ou seja, citando os que realmente fizeram?
Esta teria sido a segunda vez que Pedro Mufatto, valendo-se da condição de prefeito, recebeu os créditos pelo novo autódromo. Outras investidas ocorreram ao longo de 1973 durante algumas provas.
Os habitantes de Cascavel pouco se preocupam com o time de futebol da cidade, o Cascavel, que chegou até a disputar o Campeonato Paranaense em 71 e 72. Eles se interessam mais por um outro esporte, o automobilismo. Afinal, até mesmo o prefeito é piloto. Um piloto conhecido em todo o Brasil.
A cidade de Cascavel, no sudoeste do Paraná, é bem mais diferente de todas as outras do Brasil. Lá, em vez de futebol, a maior parte das pessoas prefere o automobilismo, principalmente agora que o prefeito Pedro Muffato se encontra na vice-liderança do Campenato Brasileiro de Construtores - Divsão 4 -, com seu Avallone Chrysler vermelho e branco. E ele já era campeão estadual!
Antes de chegar a prefeito e se destacar em competições nacionais, Muffato chegou a correr com um bimotor (um motor Volkswagen atrás e um DKW na frente), passando por diversos fuscas até chegar no Avallone de hoje, que já levou quase Cr$ 700.000,00 do seu bolso. Ele diz que conseguiu atingir esse ponto apenas porque sempre gostou de velocidade.
Humilde, simpático, Muffato é considerado na cidade como a antítese do político interior. Para quem chegou a Cascavel, em 1966, com Cr$ 25,00 no bolso, vindo de Irati, cidade famosa por suas batatas, ele subiu na vida tão rápido como anda nas pistas. Empresário de sucesso, considera a Divisão 4 como o ponto máximo que pode atingir no momento, chegando a afirmar que por enquanto ainda não dá para ficar com o título de campeão brasileiro:
-Tem muita gente boa e com carros mais preparados dque o meu andando por aí
No entanto, não consegue esconder seus grandes sonhos, bem mais altos que o título do Campeonato Brasileiro de Construtores:
-Eu estou satisfeito na Divisão 4, mas se tivesse tempo sairia para tentar uma Fórmula 2, por exemplo. É claro que precisaria de muito mias experiência, mas é só tentando que a gente alcança alguma coisa.
Em competições, Muffato só começou a participar mesmo há seis anos e hoje, aos trinta, famoso e conhecido em todo o estado como o "prefeito-piloto", ele conta as pressões contrárias que recebia, principalmente pelas preocupações de sua mulher.
-No começo, ela me repreendia, por minhas loucuras. Mas agora está bem diferente, a Mayl me faz muitos elogios, a não ser quando me saio mal.
Sua popularidade não fica restrita apenas à pequena cidade de Cascavel, já que todos os habitantes do sudoeste paranaense torcem por ele, esperando um título de campeão brasileiro.
As atividades esportivas de Muffato vão um pouco além das participações em provas de automobilismo. Nas tardes de sábado e manhãs de domingo, ele joga suas peladas no Country Club de Cascavel, embora não seja tão brilhante com a bola nos pés como ao volante de um carro de corrida. Seus companheiros de futebol o taxam como um autêntico "perna de pau", mas ele, bem humorado, se defende:
-É, pode ser. Mas tem um negócio: faço de vez em quando os meus golzinhos.
Dia 22 de abril, mais de 40.000 pessoas estiveram presentes à inauguração do autódromo de Cascavel, o quinto do país e o primeiro do interior, agora com sua pista totalmente asfaltada. À margem da BR-277, estrada que liga Paranaguá a Foz do Iguaçu, o autódromo surpreende a todos por sua beleza.
Os trabalhos de construção para o acabamento do autódromo começaram quando as corridas em pista de terra compactada foram proibidas pela Federação Paranaense de Automobilismo. Então, os 85 sócios se reuniram e decidiram que o Autódromo Cascavel S.A. - Empreendimentos Esportivos deveria ser totalmente melhorado, com uma nova pista, inteiramente asfaltada.
Gastaram aproximadamente Cr$ 600.000,00 nessa reconstrução, que demorou apenas 38 dias. Sua capacidade ficou sendo aproximadamente para 60.000 espectadores em todo o circuito.
Existe um parque de estacionamento para 15.000 veículos, área para camping, um túnel de acesso ao miolo do circuito, dez lanchonetes, sanitários, água, luz e cabinas para imprensa com telefone e linhas para rádio e TV. O asfaltamento e a sinalização dos 3072 metros de pçista foi realmente a principal obra.
Os pilotos que participaram da inauguração do autódromo foram unâmines em elogiá-lo. Pedro Vítor de Lamare, por exemplo, garantiu que "a pista é excelente e com uma característica importante: é exigente e não descanso ao piloto.".
Hoje em dia, enquanto o motor Chrysler do Avallone de Pedro Muffato ronca pela pista, seus amigos não escondem a enorme satisfação, comparando o autódromo de Cascavel com o de Curitiba: - Por ufania, o nosso é o primeiro. Por modéstia, o segundo.
O sucesso do prefeito-piloto realmente tornou Cascavel a capital do automobilismo paranaense.
Hélio Teixeira - Revista Placar - edição 166
Lendo a entrevista do meu pai, no Jornal Fronteira do Iguaçu em 19/05/1973, vi o número da edição da Revista Placar (no 166) em que o Pedro estampava como o prefeito piloto que construiu o autódromo. Depois de dois anos de busca na internet, consegui comprar um exemplar de um colecionador.