Em 16 de novembro de 1969, o grupo liderado por meu pai conseguiu batizar a pista de terra do autódromo com a \“Prova Cascavel de Ouro\”, que neste ano comemora meio século de existência. É a corrida de longa duração mais conhecida do automobilismo paranaense.

O biênio 1968/1969 foi um marco na indústria automobilística e no automobilismo esportivo brasileiro. Chegaram ao mercado as novidades em veículos. Entre eles, o Ford Galaxie, o Opala da GM, o Puma VW, o Corcel da Ford/Willys, o Dodge Dart da Chrysler, entre outros. Foi também neste período que comecei a ir para o autódromo com meu pai em sua carretera. Lembro bem que assistíamos às corridas em cima de uns palanques no \“S\”, no \“curvão\” e na reta. Era tanta poeira que a gente cuspia tijolo.

O \“curvão\” é uma das curvas mais desafiadoras do mundo. O traçado foi desenhado por meu pai e depois transcrito pelo engenheiro Ciro Bucaneve dentro do que se exigia dos projetos de engenharia para o asfaltamento. O \“curvão\” tem uma peculiaridade. Por obra do Juca Baldo, um dos tantos \“homens invisíveis\” que ajudaram na construção do autódromo, ele se divide em duas curvas. Conta-se que já no fim dos trabalhos, Juca Baldo resolveu dar uma inclinada maior na curva. Desse improviso surgiu o \“curvão\”.

Foto: Miguel Beux no colo de seu pai, em frente ao Simca ainda inteiro.

Cena típica das família que visitavam o autódromo aos domingos. Nessa foto, Miguel Beux com um ano de idade.

O Simca Chgambord já transformado em Carretera, mas ainda com capota.

Como todo menino da minha idade, eu adorava carrinhos. Não tinha a mínima noção, mas era um dos poucos garotos que brincava numa pista de verdade, sempre a tiracolo do meu pai, um dos pilotos que liderava a construção daquela obra grandiosa.

Toda a emoção do que eu vivia ali no autódromo, o burburinho dos pilotos e dos carros, servia de inspiração para as brincadeiras em casa. Pegava o capacete branco do meu pai, guardado com zelo no fundo do guarda-roupa, e me escondia debaixo da máquina de costura da minha mãe. Na imaginação de menino, a polia virava um volante. Ali, por pistas imaginárias, eu rodava horas e horas, numa disputa incansável com outros pilotos também imaginários.

Não é para menos. Posso dizer que além de ter nascido dentro de uma oficina, a paixão pelo mundo da graxa e pelo automobilismo começou no útero.Segundo minha mãe, a primeira palavra que falei foi “oito”, número da carretera do meu pai.