Meu pai já era reconhecido e admirado publicamente por ser um homemético, responsável, empreendedor e realizador. Porém, hoje, juntando as peças do quebra-cabeça, chego à conclusão que ele foi traído por seu caráter ingênuo. Não havia nele espaço para ver maldade ou enxergar segundas intenções à sua volta. Hoje eu tenho que reconhecer que o Zilmar, presidente da Autódromo S.A., foi vítima de sua própria bondade e pureza.
Por confiar cegamente, sempre agiu com a certeza de estar cercado de pessoas honestas, leais e amigas. Com uma capacidade enorme de transpor obstáculos e resolver de forma simples as coisas mais complexas, simbolizava um verdadeiro exemplo de otimismo. O brilho dos seus olhos, porém, foi apagado.
Ao ver o prefeito recém-eleito estampado em matérias de jornais e revistas nacionais como se fosse o “pai” do autódromo, mesmo tendo se mantido ausente durante todo o tempo de construção, meu pai se sentiu apunhalado. E não apenas ele, mas os formadores de opinião, todas conhecedoras de sua luta até ali.
O fato é que meu pai trabalhou sem alarde e sem intenção de angariar benefícios para si, pois era um homem de personalidade, de caráter, e aquela situação não apenas feriu a sua dignidade, mas colocou em xeque o respeito que ele havia conquistado com seu trabalho e espírito de liderança. Articulistas dos jornais da época exigiam que ele revidasse.
Não se tratava mais de uma disputa entre amigos, num “pega” nas ruas de terra no centro de Cascavel. Apesar da maturidade, “seo” Zilmar nunca aprendeu a lidar com a malícia das pessoas e foi surpreendido por falsos amigos que, em nome de um prestígio fugaz, esqueceram toda a história.
Ao se dar conta do completo anonimato depois de batalhar tantos anos por um sonho, em 1974, um ano depois da inauguração do autódromo, decidiu se afastar da presidência. Naquele ato, estava enterrando seu maior sonho ao desmontar o Simca que pilotava com tanto gosto. O menino que havia dentro dele também morreria ali. Voltou-se aos negócios da família.